CHAMADA REVISTA MEMORARE -Vol. 6, n. 2 (jul-dez 2019)

DOSSIÊ: POTÊNCIAS DOS QUADRINHOS

Organizadores:  Dr. Alexandre Linck Vargas (UNISUL) e Dr. Ciro Inácio Marcondes (UCB)

Desde os anos 1970, quando a intelectualidade por fim descobriu os quadrinhos, são publicados estudos com a pretensão de desvendar linguagens, gramáticas, sistemas dos quadrinhos. Ainda que se ateste a inegável contribuição teórica e analítica, a tradição dos estudos de quadrinhos, fortemente influenciada ainda hoje pelo estruturalismo, construiu-se a partir de uma metodologia bastante restrita: era preciso apreender o objeto, isolar suas unidades, apontando sua funcionalidade no todo para então, após a dissecação, recompor um corpo universal a todos os quadrinhos, de modo que cada elemento testemunhe o quão é necessário ou contingente. Os limites desse procedimento evidencia-se na proliferação dos resultados e seus desacordos. Questões que seriam supostamente sanadas, como o que são os quadrinhos, quais são seus elementos fundamentais e o que delimita aquilo que é ou não uma história em quadrinhos permanecem em aberto.

As múltiplas definições de quadrinhos jamais foram apaziguadas, a incapacidade de se chegar a um elementar dos quadrinhos mostrou-se insistente, e com razoável facilidade pode-se contrapor exceções a qualquer universalização dos recursos que caracterizam aquilo que é ou não uma história em quadrinhos. Mesmo Thierry Groensteen, na introdução de O Sistema dos Quadrinhos, no tópico “A definição  inencontrável”, ao avaliar qual seria a essência dos quadrinhos, atestará a aporia da missão. Daí sua aposta no dispositivo espaçotópico e na artrologia restrita e geral, tentativas parciais de não mais estudar o objeto quadrinhos a partir de sua imobilização e desmembramento, mas por sua relação e acontecimento.“Da minha parte, estou convencido que não é abordando as HQs ao nível do detalhe que poderemos, ao preço de uma ampliação progressiva, chegar numa descrição coerente e fundamentada da sua linguagem. Proponho o contrário: que os abordemos do alto, ao nível de suas articulações maiores” (GROENSTEEN, 2015, p. 13).

Caminhos semelhantes tomaram Charles Hatfield em Alternative Comics ao pensar os quadrinhos a partir de suas tensões e Maaheen Ahmed em Openness of Comics ao pegar emprestado o conceito de obra aberta de Umberto Eco para teorizar estruturas flexíveis aos quadrinhos. Observa-se, portanto, que o estudo dos quadrinhos contemporâneo traz consigo, por vezes de maneira esquizofrênica, uma vontade de potência. Conceito nietzschiano, potência enquanto poder-vir-a-ser, que aplicado ao estudo dos quadrinhos significa uma virada metodológica. Não se trata mais de colocar o quadrinho sobre a mesa de autópsia, mas de abordá-lo em sua plena vitalidade. Aqui reconhece-se traços do método de Aby Warburg, para quem as imagens deveriam ser pensadas não pela exclusividade ou simples sequencialidade, mas por sua serialidade, capacidade sintomática de estabelecer relações múltiplas, anacrônicas e imprevisíveis. Hannah Miodrag em Comics and Language faria percurso parecido ao criticar o elogio ao sequencial enquanto pressuposto de transparência narrativa, ao passo que Christopher Pizzino em Arresting Development denunciaria o olhar organicista sobre os quadrinhos que por meio de um discurso Bildungsroman, isto é, discurso que organiza e valida uma adultidade progressiva, acaba por ocultar toda sorte de forças e contraforças.

Pensar as potências dos quadrinhos implica, portanto, em uma recusa a qualquer organização da HQ, tentativa de qualificá-la enquanto organismo fechado, para, de outro modo, abrir-se à uma cartografia dos corpos móveis, imagens rizomáticas, “corpo sem órgãos”, espaço de entradas e saídas, tempos e contratempos, ou seja, devires, pelos quais afetos e perceptos agenciam-se sensivelmente na materialidade dos quadrinhos. Em outras palavras, os quadrinhos tornam-se potentes quando voltam-se contra qualquer projeto de identidade universal e sinalizam insistentemente um ir além, ponto de fuga ontológico.

Diante dessa emergência e sua atualidade, o dossiê "Potências dos Quadrinhos" convida todos os pesquisadores e pesquisadoras de diferentes disciplinas a contribuir com produções inéditas que refletem e problematizam as questões colocadas ao estudo dos quadrinhos.

O prazo final de submissão é 13 de outubro.