Chamada Revista Memorare Vol.8, n.1 - Dossiê: Ficções Científicas

Organizadores:  Dr. Octavio Aragão (UFRJ) e Dr. Alexandre Linck Vargas (UNISUL)


A ficção científica, seja na literatura, cinema, quadrinhos ou games, é desde o século XIX a contraparte de uma razão desmaravilhada. Enquanto o século das luzes e o progresso científico traziam a promessa de um mundo desmistificado, a ficção científica germinava na tensão entre percepções-afecções iluministas e românticas. O mundo descortinava-se à luz de um saber que também ocultava esse mundo do que ele sabia de si ou do que sabíamos por completo dele. A janela convertia-se em espelho e vice-versa, o mundo científico representado tornava-se novamente maravilhoso por segredos inerentes a uma tecnologia desconhecida e as maravilhas – utópicas ou distópicas – revelavam-se gratificante ou terrivelmente reais como fábulas do hoje.

De Luciano de Samósata, Cyrano de Bergerac e Voltaire, passando por Mary Shelley, Júlio Verne e H. G. Wells, e chegando a Stanley Kubrick, Moebius e China Miéville. Passeando ou apenas dando uma volta ao redor da Lua de Luciano, Cyrano, Verne e Wells, habitada por criaturas críticas à humanidade. Conhecendo os micrômegas. Acompanhando a trilha de corpos deixada por cadáveres redivivos, criaturas letradas que assombram seus criadores. Fugindo do destino gravado por máquinas que nos odeiam. Conhecendo as cidades paralelas de Miéville, coexistentes no tempo, mas não no espaço, metáforas quase poéticas de nossas pluralidades políticas e sociais. Caminhando pelos vastos desertos de Moebius, de relevos acidentados, formas abstratas e populações alienígenas, paisagens tão exóticas que estão sempre no limiar do extraterrestre, e que ao mesmo tempo retratam a experiência impactante, o choque cultural e o contato com alucinógenos que o autor teve em sua juventude vivendo no México.

Acrescenta-se também a ficção científica abordada pela filosofia. Através de autores como Friedrich Nietzsche, Hans Vaihinger, Martin Heidegger, Vilém Flusser, Jean Baudrillard, entre outros, a ficção científica não se restringe tão somente a um gênero literário-artístico, mas é também uma questão epistemológica e um pressuposto metodológico do fazer ciência. Deste modo, a ficção, outrora antítese contra-factual, torna-se um operador da ciência, convergindo a filosofia da ciência com a teoria estética. 

Diante dessa dupla potência fabulatória de pensar o real e sobre ele especular, o dossiê "Ficções Científicas" convida todos os pesquisadores e pesquisadoras de diferentes disciplinas a contribuir com produções inéditas que desenvolvam investigações e tragam novas perspectivas sobre a ficção científica.

O prazo final de submissão é 26 de abril de 2021.